Um ode ao manequim 38 (e ao 36, e ao 40, 42, 44, 46, 48...)

Prende a respiração. Isso, isso mesmo. Encolhe a barriga e pense que seu intestino está ali apenas como acessório a ser ignorado nesse encolhimento todo. Melhor: não pense nele. Ignore sua existência pelos próximos segundos, que vão sim parecer minutos. Pense que você é uma tábua, decore um mantra oriental e imagine que essa massa amorfa na região abdominal pode sim entrar num manequim menor que o seu. 
Ainda com esse encolhimento todo, deite. A gravidade irá ajudar toda sua banha imaginária a entrar nos eixos e na calça 36. Já foi um milagre o jeans ter passado das coxas, mas você não pensa nisso. Você quer fechar a calça e sentir-se enlatada na festa, pra jogar na cara daquela menina que disse coisas ruins durante o ensino fundamental pra você, para parecer a poderosa estátua que vai ignorar o canapé porque não cabe nada no estômago por causa da bendita calça.
PÁ! O botão foi pelos ares e com ele o resto de dignidade que você tinha. Mas não chore...
Querida, você é mais que o manequim 36. Seu manequim é 38. Além disso, você é mais que o tamanho de uma calça.
Confesso ter entrado em desespero dia desses. Sempre vesti números relativamente baixos com toda minha altivez de Olívia Palito. Ganhei uma calça 38 de minha sogra linda (beijos, te amo!) e quase chorei quando vi que a dita cuja nem das minhas coxas passava. Então falei com meu namorado sobre como era ruim não entrar no meu manequim adquirido com uma "dieta do engorda"que foi longe demais. Procurei estrias e celulites e não encontrei nada que fosse digno de nota. Procurei então onde eu estava no sobrepeso. Calculei até IMC, minha gente, e a calculadora online me deu "Parabéns!" pelo peso ideal. De onde eu tirei que deveria ter um manequim X ou Y? Claro, da ditadura da beleza que quase nos oprime. Que diz que o X-tudo do podrão da esquina deve ser rechaçado todas as vezes e não comido de vez em quando. Que diz que a coca-cola do fim de semana deve ser cortada tal qual samurais cortam pescoços. 
E digo pra você que almeja as thigh gaps, ausência de estrias, barriga negativa e por ela mata. Mais do que isso, morre numa dieta e assassina seus instintos ao passar pro lado a rabanada no Natal. Mas que audácia! Deixou a água morrer na boca e a vontade do doce deu um solene último suspiro na areia da praia que você quer exibir o biquíni menor que o da Inês Brasil.
Quem foi que te disse que isso é legal? Ao menos saudável? Se eu fosse um cara eu não saberia nem o que é estria e celulite. Sabe como sei disso? Perguntei pros meus amigos se eles sabiam diferenciar estrias de celulites, banhinhas abdominais de prisão de ventre (pois é, minha gente, mulheres têm uma baita prisão de ventre por conta de hormônios). Te digo que eles nem sabiam o que era o terror das mulheres porque, e acho que a resposta deles foi genial, eles sabem que não vão encontrar o padrão Playboy que eles tanto melam nas revistas por aí. Porque ninguém anda photoshopado na rua. E ninguém precisa viver pra ter o corpo da Salimeni porque isso deve ser chato pra caramba. "Olha meu Whey Protein novo!", "Olha, mudei a série da academia".
Mulheres que batalham, estudam e cuidam do seu corpo da forma que devem cuidar são muito mais interessantes a longo prazo. Não estou dizendo que você tem que abandonar dietas de uma hora pra outra e viver de forma desregrada. Mas ao invés de lutarem pelo #projetoverão, lutem por uma vida mais saudável em todos os âmbitos. E, claro, que lhe forneçam oportunidades das escapadinhas achocolatadas porque nem só de pão vive o homem.
Se o seu manequim for 36, 38, 44 ou qualquer que seja o número, não vale a pena se descabelar se não está onde gostaria. Com calma e com conhecimento do seu próprio corpo, tenho certeza que você vai encontrar mais do que um look legal para ir naquela festa. Você vai poder comer os canapés, os camarões e lagostas que quiser com classe e com espaço na barriga. Mais do que isso: você vai se sentir tão bonita que pode parecer brega, mas nem o iluminador da MAC vai brilhar mais do que seu espírito. Você estará mais radiante porque hoje você se conhece. E você não se define mais por um número qualquer no manequim! 



Para os curiosos e curiosas de plantão, voltei na loja que minha sogra comprou a calça. A moça disse que as numerações não vieram certas e que o 38 era o 36, o 40 era o 38 e assim por diante. Ah, e que eles estava trabalhando para consertar. Não sei como foi que saí da loja, mas não me senti melhor por saber que meu tamanho ainda era o 38. Fiquei pensando: "E o último tamanho, coitada? Se o 46 é o tal do 44... E quem veste o real 46? Não existe mais! Aboliram! A ditadura da beleza é realmente uma bela e gorda duma merda!"


4 comentários:

Indiferente disse...

Ebaaaa! Agora dá pra comentar hahahahaha Seu post foi mt bem elaborado e inspirador. Eu me encanava mt mais com meu corpo, hoje quero ficar gostosa tipo Anitta, mas se não conseguir não tem problema. Aliás nem estou me esforçando pra isso. Mas tem gente que pode precisar mais desse texto porque a internet é um refúgio. Parabéns, creio que vc possa ajudar mt gente. O lay tá lindooo :D sucesso

Ana Beatriz Leiroz disse...

Muito obrigada pelo comentário magnífico. Muita gente pode ser ajudada com isso e assim espero! Obrigada por tudo!

Gi Dieguez disse...

Eu sou meio neurótica com essa coisa de peso, tanto que já cheguei a ser anoréxica. Hoje em dia, olho pro meu corpo e gosto do que vejo, aprendi a me amar. Adorei o post, você escreve muito bem! E parabéns pelo presentinho da sogrinha rs
Beijão,
destemidagarota.blogspot.com

Ana Beatriz Leiroz disse...

Obrigada, Gi! Eu acho que ser mulher traz um pouco dessa neurose com o corpo mesmo, sabe? De que ele tem que ser assim ou assado, mas quer saber? Se eu tiver que comer um podrão eu vou comer porque eu vou me sentir feliz assim. E eu não fico nessa loucura de ser manequim X ou Y. Se a roupa vestir bem, de que importa o tamanho?