Calmaria é coisa rasa

O fato é que eu entrei na casa. Talvez por saudade, uma nostalgia encravada na alma, talvez por confirmação. Queria ter certeza de que não sentia falta daquela época e tudo o que pude perceber era que nossas fotos continuavam lá. Naquela escrivaninha empoeirada, tatuada por copos de álcool e selada pelo tempo. Esse lugar que eu já chamei de lar agora é habitado por fantasmas, que não passam de lembranças suas. 
Subi as escadas desviando-me de memórias. Muitas delas doem lá no fundo da minha alma, mas ando desconfiado de que esta não tenha um fundo. Era tudo tão raso quando se tratava de nós... E esse raso foi sendo cavado, foram sendo retiradas toneladas de calmaria para se jogar terra. Tudo isso me deixou tão profundo! Irônico de se pensar, mas calmaria é coisa rasa. Sofrimento te deixa profunda, garota! Então a gente foi se aprofundando, chamando isso de divertimento, achando que era um jogo de cartas. Apostamos alto e afundamo-nos em nós mesmo. Eu em você e você em mim. 
Entrei na casa desconfiando de que não tinha alma. Mas tudo o que pude perceber é que ela continua lá. Tão longe de se alcançar, tão fácil de se perceber. Porque seres desalmados não deixam que a lágrima brote pelo canto do olho, não deixam a ferida aberta sem curativo. E eu deixei, menina. Deixei nossa casa aberta esperando uma visita nova, mesmo que fosse só o vento balançando as cortinas de seda. Aquelas cortinas que sua avó deu no nosso casamento e eu odiava. Agora elas sorriem pra mim acariciadas pela brisa. Esta invade os cômodos e levanta teu cheiro. Bebida, pele, cabelo. Pelos. Anseios. Desejos. 
Saí da casa tendo certeza que tinha alma. Saí da casa esperando teu regresso. Nunca voltei lá porque tinha medo de que voltasse incompleta. Porque não voltará por inteiro nunca. E agora alimento-me de lembranças em sépia.



9 comentários:

Renata Lima disse...

Ana isso não é um texto é uma tortura.
Você dá um o gosto bom e tira. Nossa, nunca vou me esquecer do quanto é bom ler algo que você escreve!!!!

"Irônico de se pensar, mas calmaria é coisa rasa. Sofrimento te deixa profunda, garota! Então a gente foi se aprofundando, chamando isso de divertimento, achando que era um jogo de cartas. Apostamos alto e afundamo-nos em nós mesmo. Eu em você e você em mim."

Favorito.

Ana Beatriz Leiroz disse...

Ai, Rê, que vergonha. Eu tô postando esse que eu acho meio incompleto por agora pelo início pra ir melhorando. Sabia que to tentando voltar? Você é meu exemplo, garota! Sempre fui apaixonada em tudo o que você escrevia. Obrigada mesmo!

Bia Santos disse...

Oi florzinha!! Tudo bom?? Então, eu te indiquei pra responder uma tag. Corre lá no meu blog e vê. Se responder me avisa pra eu poder ler suas respostinhas ok? Beijinhosss
http://pantufa-rosa.blogspot.com.br/2013/12/tag-conhecendo-blogueira-ola-meninas.html#comment-form

Bia Santos disse...

Oi florzinha!! Tudo bom?? Então, eu te indiquei pra responder uma tag. Corre lá no meu blog e vê. Se responder me avisa pra eu poder ler suas respostinhas ok? Beijinhosss
http://pantufa-rosa.blogspot.com.br/2013/12/tag-conhecendo-blogueira-ola-meninas.html#comment-form

Ana Beatriz Leiroz disse...

Olá, Bia! Eu vi a tag, mas eu fiz ainda essa semana uma quase igual! Agradeço muito porque é extremamente gratificante saber que mesmo nova na blogosfera! Se quiser ver a tag que fiz, olha aqui: http://balburdia-interna.blogspot.com.br/2013/12/tag-11-coisas.html

Kassya Araújo disse...

Texto lindo, os sentimentos do texto me trouxe algumas lembranças

Lari disse...

Opa! Ei, Ana. Nossa, que texto mais profundo. E achei muito bacana a forma como você descreve as cenas, pois dá para imaginá-las direitinho, detalhes e tudo. <3
Beijos!

Ana Beatriz Leiroz disse...

Ai, que delícia saber disso! É pra coisas assim que a gente escreve, pra causar alguma sensação nos outros. Muito obrigada!

Ana Beatriz Leiroz disse...

Oi, Lari!! Obrigada pelo elogio, é sempre importante <3 Beijos!